Exegese verso a verso

Gênesis 1:26-28

GÊNESIS 1:26-28 — FAÇAMOS O HOMEM À NOSSA IMAGEM

Estudo Exegético — Estudo integral


1. CONTEXTO HISTÓRICO, LITERÁRIO E TEOLÓGICO

1.1 Contexto Histórico

No Antigo Oriente Próximo (ANE), a "imagem de deus" era prerrogativa exclusiva do rei. No Egito, o faraó era a "imagem viva" (ṣlm) de Rá ou Amon — representante divino na terra. Na Mesopotâmia, o rei era "imagem de Marduk" ou "imagem de Shamash." A revolução teológica de Gn 1:26-28 é a democratização radical desta dignidade: não apenas o rei, mas TODO ser humano — homem e mulher, sem distinção — é imagem de Deus. Isto subverte toda hierarquia sacral do ANE de uma só vez.

O contexto histórico imediato (seja mosaico ou pós-exílico) é de um povo oprimido. Israel no Egito era escravizado por um faraó que se autoproclamava "imagem divina." Gn 1:26-28 declara: o escravo hebreu carrega a mesma dignidade divina que o faraó — ambos são imago Dei. No exílio babilônico, onde os judeus eram desprezados por um império que divinizava seu rei, o texto reafirma: a humanidade toda, não o imperador, é portadora da imagem divina.

1.2 Contexto Literário

Gn 1:26-28 é o clímax da narrativa de criação (1:1–2:3). A estrutura dos seis dias segue um padrão de formação (dias 1-3) e enchimento (dias 4-6), com o ser humano como ápice do sexto dia — o último ato criativo antes do descanso sabático. Diferente de todas as outras criaturas (criadas por "haja..."), a humanidade é precedida por deliberação divina ("Façamos..."), indicando que este ato é qualitativamente distinto.

A estrutura literária de 1:26-28 é poética dentro da prosa:

  • v.26a — deliberação divina (1ª pessoa plural: "façamos")
  • v.26b — propósito: domínio sobre as criaturas
  • v.27 — execução narrada em verso tripartite (três ocorrências de בָּרָא)
  • v.28 — bênção e mandato (fecundidade + domínio)

1.3 Contexto Teológico

Este texto funda a antropologia bíblica inteira. Tudo que a Bíblia diz sobre dignidade humana, ética, pecado, redenção e escatologia pressupõe que o ser humano é imago Dei. A imagem é:

  • Base da proibição do homicídio (Gn 9:6)
  • Fundamento da igualdade humana (At 17:26; Gl 3:28)
  • O que Cristo restaura plenamente (Cl 3:10; 2 Co 3:18)
  • O destino escatológico: conformidade à imagem do Filho (Rm 8:29)

1.4 Delimitação da Perícope

Abertura (v. 26): Mudança de fórmula — "Façamos" (deliberação divina) rompe com o padrão anterior ("Haja...") Fechamento (v. 28): Conclusão da bênção; v. 29 muda para provisão alimentar (novo tópico)

TraduçãoDivisãoNota
BHS1:26-28 como unidadeDeliberação + execução + bênção
ARA1:26-28Mesma delimitação
NVI1:26-28Mesma delimitação

2. CRÍTICA TEXTUAL

2.1 Texto Base

Hebraico (BHS):

v.26: וַיֹּ֣אמֶר אֱלֹהִ֔ים נַֽעֲשֶׂ֥ה אָדָ֛ם בְּצַלְמֵ֖נוּ כִּדְמוּתֵ֑נוּ וְיִרְדּוּ֩ בִדְגַ֨ת הַיָּ֜ם וּבְע֣וֹף הַשָּׁמַ֗יִם וּבַבְּהֵמָה֙ וּבְכָל־הָאָ֔רֶץ וּבְכָל־הָרֶ֖מֶשׂ הָֽרֹמֵ֥שׂ עַל־הָאָֽרֶץ׃
v.27: וַיִּבְרָ֨א אֱלֹהִ֤ים ׀ אֶת־הָֽאָדָם֙ בְּצַלְמ֔וֹ בְּצֶ֥לֶם אֱלֹהִ֖ים בָּרָ֣א אֹת֑וֹ זָכָ֥ר וּנְקֵבָ֖ה בָּרָ֥א אֹתָֽם׃
v.28: וַיְבָ֣רֶךְ אֹתָם֮ אֱלֹהִים֒ וַיֹּ֨אמֶר לָהֶ֜ם אֱלֹהִ֗ים פְּר֥וּ וּרְב֛וּ וּמִלְא֥וּ אֶת־הָאָ֖רֶץ וְכִבְשֻׁ֑הָ וּרְד֞וּ בִּדְגַ֤ת הַיָּם֙ וּבְע֣וֹף הַשָּׁמַ֔יִם וּבְכָל־חַיָּ֖ה הָֽרֹמֶ֥שֶׂת עַל־הָאָֽרֶץ׃

Tradução de trabalho:

v.26: "E disse Deus: Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme nossa semelhança; e que domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que rasteja sobre a terra."
v.27: "E criou Deus o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou."
v.28: "E abençoou-os Deus e disse-lhes Deus: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra e subjugai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que rasteja sobre a terra."

2.2 Aparato Crítico

TestemunhoLeituraDiferençaAvaliação
TMנַעֲשֶׂה אָדָם בְּצַלְמֵנוּ כִּדְמוּתֵנוּBase de trabalhoAdotado
LXXΠοιήσωμεν ἄνθρωπον κατ᾽ εἰκόνα ἡμετέραν καὶ καθ᾽ ὁμοίωσιν"Segundo imagem nossa e conforme semelhança" — distingue εἰκών (imagem) de ὁμοίωσις (semelhança)Confirma TM; distinção será explorada pelos Pais
Targum Onkelosנעביד אדם בצלמנא כדמותנאSegue TM fielmenteConfirma
PeshittaSegue TMConfirma
Vulgatafaciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram"ad" (para/em direção a) sugere teleologiaNuance latina, não variante
SamaritanoIdêntico ao TMConfirma

2.3 Conclusão Textual

Nenhuma variante textual significativa. O texto é estável em toda a tradição. A única questão interpretativa levantada pelas versões é a distinção entre "imagem" (צֶלֶם / εἰκών) e "semelhança" (דְּמוּת / ὁμοίωσις) — que é hermenêutica, não textual.


3. ESTRUTURA DO TEXTO

3.1 Diagrama Estrutural

A  — v.26a  DELIBERAÇÃO: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme nossa semelhança"
  B  — v.26b  PROPÓSITO: "e domine sobre..." (5 categorias de criaturas)
A' — v.27    EXECUÇÃO: "E criou Deus o homem à sua imagem"
              (estrutura tricolon: criou/criou/criou — 3x בָּרָא)
  B' — v.28   BÊNÇÃO + MANDATO: "Frutificai... enchei... dominai"

3.2 Análise da Estrutura

A perícope segue o padrão Deliberação → Execução → Bênção:

  1. Deliberação (v.26): Deus anuncia sua intenção em 1ª pessoa plural
  2. Execução (v.27): O narrador relata o ato criativo — verso poético tripartite
  3. Bênção (v.28): Deus fala diretamente à humanidade — mandato de fecundidade e domínio

O v.27 é especialmente notável por sua forma poética dentro da prosa narrativa:

(a) E criou Deus o ser humano à sua imagem
(b)    à imagem de Deus o criou
(c)       macho e fêmea os criou

O tricolon com repetição de בָּרָא (3x) intensifica: este ato é criação no sentido mais pleno. A progressão vai de geral → específico → diferenciação sexual.

3.3 Padrão Retórico

  • Deliberação divina ("façamos") — única no relato; eleva a humanidade acima de todas as demais criaturas
  • Repetição tripla de בָּרָא (v.27) — marca solene de novidade ontológica
  • Paralelismo sintético — cada linha acrescenta informação nova
  • Mérismo de gênero — "macho e fêmea" = humanidade completa

4. QUADRO I — TERMOS-CHAVE

4.1 Tabela Lexical

#Termo OriginalTransliteraçãoFormaCampo SemânticoUso Neste TextoOcorrências (Gn/AT/Bíblia)Peso TeológicoAplicação Hoje
1צֶלֶםṣelemSubst. masc. sg.Imagem, estátua, representaçãoRepresentação visível de Deus na terra — função + ontologia5/17/17Fundamento de toda dignidade humanaTodo ser humano — sem exceção — carrega dignidade inviolável
2דְּמוּתdᵉmûṯSubst. fem. sg.Semelhança, parecença, modeloCorrespondência relacional com Deus (não identidade)3/25/25Esclarece que a imagem é analógica, não ontológicaSemelhança implica capacidade relacional com Deus
3אָדָםʾādāmSubst. masc. sg. (coletivo)Ser humano, humanidade, homemColetivo: designa toda a espécie humana (v.27: "os criou")28/562/562Humanidade como unidade — solidariedade adâmicaNinguém está fora; toda pessoa é "adam"
4רָדָהrādâVerbo Qal impf. 3mplDominar, governar, pastorearDomínio delegado sobre a criação animal2/25/25Autoridade como mordomia, não tiraniaLiderança cristã é serviço, não exploração
5כָּבַשׁkāḇašVerbo Qal impv. 2mplSubjugar, pisar, conquistarMandato de tornar a terra habitável e produtiva1/14/14Mandato cultural — desenvolver, cultivar, organizarTrabalho humano é vocação divina
6זָכָרzāḵārSubst. masc. sg.Macho, masculinoDiferenciação sexual como parte da criação "muito boa"2/82/82Sexualidade é boa, criada, intencionalGênero não é construção arbitrária — é design
7נְקֵבָהnᵉqēḇâSubst. fem. sg.Fêmea, femininoComplemento do macho na imagem de Deus2/22/22Mulher igualmente portadora da imago DeiIgualdade ontológica absoluta entre homem e mulher
8נַעֲשֶׂהnaʿăśêVerbo Qal coort. 1cplFaçamos (fazer)Deliberação divina — plural coortativo1/—"Façamos" — abertura trinitária ou plural deliberativoDeus é pessoal, relacional, dialógico

4.2 Fontes Lexicais Consultadas

  • DITAT §1923 (צֶלֶם), §437 (דְּמוּת), §25 (אָדָם), §2121 (רָדָה), §951 (כָּבַשׁ)
  • HALOT vol. III, pp. 1028-1029 (צֶלֶם); vol. I, pp. 225-226 (דְּמוּת)
  • TDOT vol. XII, pp. 386-396 (צֶלֶם — Stendebach)
  • NIDOTTE vol. IV, pp. 643-648 (צֶלֶם)
  • Clines, D. J. A. "The Image of God in Man." Tyndale Bulletin 19 (1968): 53-103.

4.3 Observações Lexicais

Sobre צֶלֶם vs. דְּמוּת: A tradição patrística (especialmente Ireneu) distinguiu rigidamente: "imagem" = atributos naturais (razão, vontade); "semelhança" = atributos sobrenaturais (santidade, perdidos na queda). A exegese moderna reconhece que no hebraico os termos são praticamente sinônimos usados em paralelo (hendíadis) — a preposição כְּ (conforme) em כִּדְמוּתֵנוּ qualifica/explica בְּצַלְמֵנוּ, não acrescenta categoria diferente.

Sobre רָדָה: O verbo implica autoridade real — o rei "domina" (רָדָה) sobre seu território (1 Rs 5:4; Sl 72:8; Ez 34:4). Mas no contexto de Gn 1, onde Deus acabou de criar tudo "bom," o domínio é cuidado responsável, não exploração destrutiva. Ezequiel 34:4 condena os pastores que "dominam com rigor" (רָדָה בְפָרֶךְ) — mostrando que o verbo pode ser usado abusivamente.

Sobre "Façamos" (נַעֲשֶׂה): Quatro interpretações principais: (1) Plural de deliberação/majestade; (2) Deus falando com o concílio celestial (anjos); (3) Pré-indicação trinitária; (4) Plural de auto-exortação. A teologia cristã favorece (3) como interpretação canônica final, sem excluir que o sentido literal imediato possa ser (1) ou (2).


5. EXEGESE VERSÍCULO-POR-VERSÍCULO

Versículo 1:26

וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים נַעֲשֶׂה אָדָם בְּצַלְמֵנוּ כִּדְמוּתֵנוּ וְיִרְדּוּ בִדְגַת הַיָּם... "E disse Deus: Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme nossa semelhança; e que domine sobre..."

Análise gramatical:

  • Verbo introdutório: וַיֹּאמֶר — wayyiqtol (narrativa sequencial)
  • Verbo principal: נַעֲשֶׂה — Qal coortativo 1ª pessoa comum plural ("façamos")
  • Objeto: אָדָם — sem artigo: "ser humano" genérico/coletivo
  • Modificadores: בְּצַלְמֵנוּ כִּדְמוּתֵנוּ — dois sintagmas preposicionais paralelos
  • Propósito: וְיִרְדּוּ — Qal jussivo 3mpl: "e que dominem" (propósito/consequência)

Semântica contextual:

A mudança de "Haja..." (impessoal, 3ª pessoa) para "Façamos..." (1ª pessoa plural deliberativa) é a ruptura mais significativa do relato. Nenhuma outra criatura recebe deliberação prévia. O verbo עָשָׂה (fazer) é usado em vez de בָּרָא (criar) — mas v.27 usará בָּרָא três vezes, mostrando que ambos coexistem. A diferença: עָשָׂה enfatiza a ação artesanal deliberada; בָּרָא marca a novidade ontológica.

Exegese:

O "Façamos" é o momento mais solene de toda a narrativa de criação. Deus, que até aqui criou por decreto impessoal ("Haja luz"), agora se detém, delibera, e anuncia sua intenção. A humanidade não é "mais uma criatura" — é o telos de todo o processo criativo, o ápice para o qual tudo converge. A deliberação divina confere à humanidade uma dignidade que nenhum outro ser criado possui: somos resultado de intenção específica, não de decreto genérico.

O duplo prepositional "à nossa imagem, conforme nossa semelhança" funciona como hendíadis — dois termos expressando uma realidade: a humanidade corresponde a Deus de maneira análoga (não idêntica). Ṣelem (de raiz que pode significar "esculpir") enfatiza representação concreta; dᵉmûṯ (de raiz "ser semelhante") suaviza: não somos Deus, somos como Deus.

Conexão com o argumento:

O v.26 estabelece o mandato de domínio como consequência da imagem: PORQUE somos imagem de Deus, PORTANTO dominamos. O domínio não é a imagem — é resultado dela. Quem porta a imagem do Rei governa em nome do Rei.

Versículo 1:27

וַיִּבְרָא אֱלֹהִים אֶת־הָאָדָם בְּצַלְמוֹ בְּצֶלֶם אֱלֹהִים בָּרָא אֹתוֹ זָכָר וּנְקֵבָה בָּרָא אֹתָם׃ "E criou Deus o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou."

Análise gramatical:

  • Três orações com בָּרָא — tricolon poético dentro da prosa
  • Linha (a): wayyiqtol + objeto definido (אֶת־הָאָדָם) + בְּצַלְמוֹ (à sua imagem — sufixo 3ms)
  • Linha (b): בְּצֶלֶם אֱלֹהִים — repetição enfática ("à imagem de DEUS")
  • Linha (c): זָכָר וּנְקֵבָה — mérismo de gênero; "os criou" (אֹתָם — plural)
  • Transição singular → plural: "o criou" (אֹתוֹ) → "os criou" (אֹתָם)

Semântica contextual:

O uso triplo de בָּרָא marca este como o ato criativo supremo — mais enfático que Gn 1:1 (uma ocorrência). A progressão semântica é:

  1. Deus criou o ser humano à sua imagem (relação Criador-criatura)
  2. À imagem de Deus o criou (ênfase na fonte: é a imagem DE DEUS, não de outro)
  3. Macho e fêmea os criou (a imagem inclui ambos — nenhum gênero sozinho é imagem completa)

Exegese:

Este é possivelmente o versículo mais denso teologicamente de toda a Escritura. Em três linhas, o autor estabelece:

(a) A humanidade é criada (bārāʾ — novidade radical) à imagem de Deus. Isto é afirmação ontológica: não é algo que fazemos, é algo que SOMOS. A imagem não é perdida na queda (Gn 9:6 pressupõe que assassinar um ser humano pós-queda ainda é atacar a imagem de Deus).

(b) A repetição "à imagem de Deus" enfatiza a fonte: a dignidade humana não é auto-atribuída, não é mérito conquistado — é dom do Criador. Remove todo fundamento para discriminação: se a fonte é Deus, nenhum ser humano pode ser declarado "menos imagem" que outro.

(c) "Macho e fêmea" — a diferenciação sexual é declarada DENTRO da imago Dei, não como adição posterior. Ambos os sexos portam igualmente a imagem divina. A complementaridade sexual é design criacional, não construção cultural. E a imagem é plural: "os criou" — a imagem de Deus é plenamente manifestada na humanidade relacional, não no indivíduo isolado.

Conexão com o argumento:

V.27 executa o que v.26 deliberou, mas acrescenta a especificação crucial: "macho e fêmea." A relacionalidade humana (expressa primariamente na complementaridade sexual, mas não limitada a ela) espelha a relacionalidade divina (implícita no "façamos" do v.26).

Versículo 1:28

וַיְבָרֶךְ אֹתָם אֱלֹהִים וַיֹּאמֶר לָהֶם... פְּרוּ וּרְבוּ וּמִלְאוּ אֶת־הָאָרֶץ וְכִבְשֻׁהָ וּרְדוּ... "E abençoou-os Deus e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra e subjugai-a; e dominai..."

Análise gramatical:

  • וַיְבָרֶךְ — Piel wayyiqtol: "abençoou" — bênção é ato performativo divino
  • Imperativos: פְּרוּ (frutificai), וּרְבוּ (multiplicai), מִלְאוּ (enchei), כִבְשֻׁהָ (subjugai-a), וּרְדוּ (dominai) — cinco imperativos que constituem o mandato cultural
  • Objetos do domínio: peixes, aves, todo animal (três categorias = totalidade)

Semântica contextual:

A bênção (בָּרַךְ) é o primeiro ato divino direcionado à humanidade — antes de qualquer mandamento ou proibição. A primeira palavra de Deus para o ser humano não é lei, é bênção. Os cinco imperativos se dividem em dois grupos:

  1. Fecundidade: frutificai + multiplicai + enchei (capacidade reprodutiva)
  2. Domínio: subjugai + dominai (autoridade sobre a terra e os animais)

Exegese:

A bênção divina capacita o mandato. Deus não apenas ordena — Ele habilita. "Frutificai e multiplicai-vos" não é mero comando reprodutivo; é delegação de poder criativo: a humanidade participará (analogicamente) do ato criador de Deus ao gerar vida nova. "Enchei a terra" não é mero imperativo demográfico — é vocação de presença: a imagem de Deus deve preencher toda a terra, não ficar confinada a um jardim.

"Subjugai-a" (כִּבְשֻׁהָ) é o verbo mais forte — pode significar "pisar sob os pés" (militarmente). No contexto pré-queda, significa: a terra tem potencial não realizado; a humanidade deve desenvolvê-lo, torná-la produtiva, habitável, ordenada. É o fundamento bíblico de toda atividade cultural, científica e tecnológica legítima.

"Dominai" (רְדוּ) sobre os animais é autoridade real delegada. O ser humano é vice-regente de Deus — governa em nome do Criador. Isto implica prestação de contas: o mordomo responde ao Proprietário.

Conexão com o argumento:

V.28 completa a sequência: Deus delibera (v.26), executa (v.27), e agora abençoa e comissiona (v.28). A humanidade não existe para si mesma — existe para Deus, e sua vocação é exercer domínio responsável sobre a criação como representante do Criador.


6. PRINCIPAIS TEMAS TEOLÓGICOS

Tema 1: Dignidade Universal e Inviolável do Ser Humano

A imago Dei é o fundamento bíblico de toda dignidade humana. Não se baseia em capacidade (inteligência, saúde, produtividade), status (riqueza, poder, etnia) ou merecimento — baseia-se exclusivamente no ato criador de Deus. Isto gera consequências radicais: o feto, o idoso com demência, o deficiente, o prisioneiro, o inimigo — todos portam a imagem. Gn 9:6 torna explícito: assassinar um ser humano é atacar a imagem de Deus.

Paralelos canônicos: Gn 5:1-3; 9:6; Sl 8:4-8; Tg 3:9 ("Com ela [a língua] amaldiçoamos homens feitos à semelhança de Deus"). Conexão com teologia sistemática: Antropologia teológica; ética da vida; direitos humanos fundados teologicamente.

Tema 2: Relacionalidade como Constitutiva da Imagem

"Façamos" (plural) → "macho e fêmea os criou" (plural). A imagem de Deus não é propriedade de um indivíduo isolado — manifesta-se na comunidade, na relação, no encontro. O ser humano é criado PARA relação: com Deus (verticalidade), com o próximo (horizontalidade), com a criação (mordomia). Karl Barth desenvolveu esta ideia: a imago Dei é fundamentalmente relacional (Ich-Du), não substancial.

Paralelos canônicos: Gn 2:18 ("Não é bom que o homem esteja só"); Ec 4:9-12; Jo 17:21-23 (a unidade dos discípulos reflete a unidade trinitária). Conexão com teologia sistemática: Trindade como modelo de comunidade; eclesiologia como imago Dei corporativa.

Tema 3: Mandato Cultural e Vocação no Mundo

O domínio delegado (v.26b, 28b) funda o que a teologia reformada chama de "mandato cultural": a humanidade é chamada a desenvolver a criação — agricultura, ciência, arte, tecnologia, governo, educação — como extensão do propósito criador de Deus. O trabalho não é maldição (isso vem depois, em 3:17-19) — é vocação original.

Paralelos canônicos: Sl 8:6 ("Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos"); Pv 31:10-31 (mulher virtuosa: realização cultural); Cl 3:23 ("Tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor"). Conexão com teologia sistemática: Vocação (Lutero, Calvino); esfera da graça comum (Kuyper); cosmovisão cristã integral.

Tema 4: Igualdade de Gênero na Imago Dei

"Macho e fêmea os criou" — AMBOS à imagem de Deus, AMBOS abençoados, AMBOS recebem o mandato de domínio. Não há hierarquia na criação originária entre homem e mulher no que tange à dignidade, ao valor ou à posse da imagem. Qualquer subordinação que surja posteriormente (Gn 3:16) é resultado da queda, não do design criacional.

Paralelos canônicos: Gl 3:28 ("não há macho nem fêmea, pois todos vós sois um em Cristo Jesus"); Gn 2:18-23 (mulher como ʿēzer kᵉneḡdô — ajudadora correspondente, não inferior). Conexão com teologia sistemática: Complementarismo vs. igualitarismo; dignidade feminina; ética sexual.

Tema 5: Cristo como Imagem Perfeita e Restauração

O NT identifica Cristo como "a imagem do Deus invisível" (Cl 1:15) — a imago Dei em perfeição. Onde Adão falhou (a imagem deformada pelo pecado), Cristo restaura (2 Co 3:18; Rm 8:29: "conformes à imagem de seu Filho"). A escatologia cristã é re-imagificação: seremos como Ele é (1 Jo 3:2).

Paralelos canônicos: Cl 1:15; 2 Co 4:4; Hb 1:3 ("resplendor da glória e expressão exata do seu ser"); Rm 8:29; 1 Co 15:49 ("assim como trouxemos a imagem do terrestre, traremos também a imagem do celestial"). Conexão com teologia sistemática: Cristologia (Cristo como segundo Adão); soteriologia (salvação como restauração da imagem); escatologia (glorificação).


7. QUADRO II — PAINEL DE TEÓLOGOS (10 Especialistas)

7.1 Tabela Consolidada

#TeólogoTradição/MétodoObra ConsultadaTese sobre Gn 1:26-28Contribuição DistintivaCrítica RecebidaConfiabilidade
1Claus WestermannCrítica das formasGenesis 1-11 (Continental)A imagem é o ser humano inteiro — não uma parte ou faculdade; é relação com Deus, não substânciaRejeita redução da imagem a "razão" ou "alma"Minimiza distinção qualitativa humano-animalAlta
2Gordon J. WenhamEvangélico, literárioGenesis 1-15 (WBC)Imagem = representação real de Deus na terra; como estátua de rei em província distanteCombina função (vice-regência) com ontologia (dignidade intrínseca)Pode ser vago sobre conteúdo preciso da imagemAlta
3J. Richard MiddletonEvangélico, ANEThe Liberating Image (2005)Imagem é primariamente funcional/vocacional: representar Deus pelo domínio justo sobre a criaçãoContexto ANE rigoroso; "democratização da imagem real"Pode minimizar aspecto ontológicoAlta (referência moderna)
4D. J. A. ClinesCrítico"The Image of God in Man" (TB 19, 1968)Imagem é a totalidade da pessoa humana como representante de Deus; não é "parte" do humanoArtigo seminal; demonstra que imagem não é razão, alma ou corpo separadamenteDatado; não atualizadoAlta (clássico)
5Karl BarthNeo-ortodoxiaChurch Dogmatics III/1A imago Dei é fundamentalmente relacional (Ich-Du): "macho e fêmea" é o conteúdo da imagemInsight relacional brilhante; conecta imago Dei à TrindadeCriticado por reduzir imagem apenas a relação; ignora aspecto funcionalMédia-Alta
6Anthony HoekemaReformadoCreated in God's Image (1986)Imagem tem três aspectos: estrutural (capacidades), funcional (domínio), relacional (comunhão)Síntese equilibrada das três dimensõesPode parecer eclético demaisAlta (referência reformada)
7Victor P. HamiltonEvangélico (NICOT)The Book of Genesis 1-17"Façamos" é plural de auto-deliberação; imagem inclui tanto constituição quanto funçãoEquilibrado, exegeticamente sólidoConservador sem inovação significativaAlta
8Bruce K. WaltkeReformadoGenesis: A CommentaryImagem significa que o humano é representante de Deus; o "façamos" é deliberação intra-trinitáriaConexão forte entre imago Dei e mandato régioNem todos aceitam leitura trinitária do "façamos"Alta
9João CalvinoReformaCommentary on Genesis (1554)A imagem inclui tudo que distingue o humano do animal: razão, justiça original, retidão — mas foi "horrivelmente deformada" na queda, não destruídaDoutrina do "resquício" (remanescente) da imagem pós-quedaTende a intelectualizar a imagem (enfatiza razão)Alta (confessional)
10Jürgen MoltmannTeologia da esperançaGod in Creation (1985)A imago Dei aponta escatologicamente: o ser humano é imagem do Deus que vem — criado para o futuro de Deus, não apenas do passadoDimensão escatológica e pneumatológica da imagemPode minimizar a realidade presente da imagemMédia-Alta

7.2 Síntese do Painel

Consenso: A imago Dei não é redutível a uma faculdade (razão, alma, consciência) — é a totalidade do ser humano em relação com Deus, com o próximo e com a criação. A imagem inclui função (representar e governar) e dignidade (valor intrínseco).

Divergência principal: A ênfase relativa entre os aspectos: funcional/vocacional (Middleton, Clines), relacional (Barth), substancial/estrutural (Calvino, tradição escolástica). A síntese moderna (Hoekema) tenta integrar os três.

Contribuição mais original: Middleton ("democratização da imagem real" no ANE) e Barth (imagem como relação Ich-Du fundada em "macho e fêmea").


8. HISTÓRIA DA RECEPÇÃO

8.1 Período Patrístico (séc. I-V)

Ireneu (Adversus Haereses V.6.1) distinguiu "imagem" (aspectos naturais preservados após a queda: razão, liberdade) de "semelhança" (santidade original, perdida na queda e restaurada em Cristo). Esta distinção dominou por séculos. Agostinho (De Trinitate XII-XIV) localizou a imagem nas faculdades trinitárias da alma: memória, inteligência, vontade — espelho da Trindade. Gregório de Nissa enfatizou liberdade e capacidade de auto-determinação.

8.2 Idade Média (séc. VI-XV)

Tomás de Aquino (ST I, q.93) desenvolveu: a imagem consiste primariamente no intelecto (capax Dei — capacidade de conhecer Deus). Três graus: (1) natural (todo humano); (2) graça (os justificados); (3) glória (os bem-aventurados). A escolástica tendeu a intelectualizar a imagem, identificando-a com a alma racional.

8.3 Reforma (séc. XVI)

Lutero: a imagem consistia primariamente em justitia originalis (justiça original) — e foi totalmente perdida na queda. Calvino: a imagem estava "em todas as partes da alma" mas foi "horrivelmente deformada" (não destruída) pelo pecado. Calvino rejeitou a distinção imagem/semelhança de Ireneu como "falsa sutileza." A Reforma enfatizou a necessidade de Cristo para restaurar a imagem.

8.4 Período Moderno (séc. XVII-XX)

Barth (1945): a imagem é relação (confronto Eu-Tu), não substância — rejeição de toda localização anatômica ou psicológica. Brunner: a imagem é "responsividade" — capacidade de responder a Deus. O debate Barth-Brunner (1934) sobre "ponto de contato" (Anknüpfungspunkt) dividiu a teologia reformada: Barth nega qualquer resquício natural; Brunner afirma capacidade formal (não material) preservada.

8.5 Contemporâneo (séc. XXI)

Middleton (2005): abordagem funcional-real (ANE). Leituras pós-coloniais: a imago Dei como fundamento para direitos humanos universais e contra toda forma de desumanização (escravidão, racismo, genocídio). Neurociência e IA levantam novas questões: se a imagem depende de consciência, o que dizer de estados vegetativos? E de IA com "consciência"?

8.6 Usos Indevidos Históricos

  • Racismo: A "maldição de Cam" (Gn 9:25) foi usada para negar a imago Dei a africanos — distorção hermenêutica grotesca refutada pelo texto: "macho e fêmea" = toda humanidade, sem distinção étnica.
  • Sexismo: A imagem foi atribuída primariamente ao homem, com a mulher como "imagem derivada" — contradição direta de v.27c ("macho e fêmea os criou").
  • Especismo radical: Usado para justificar crueldade com animais ("somente humanos importam") — distorção do mandato de domínio responsável.

9. QUADRO III — PROBLEMAS TEOLÓGICOS E SOLUÇÕES

9.1 Tabela de Problemas Disputados

#Problema/QuestãoO que está em jogoSolução ASolução BSolução CMais AceitaFundamento Decisivo
1O que é a "imagem de Deus"? (conteúdo)Definição da dignidade humana e sua baseFuncional — representar Deus governando a criação (Middleton, Clines)Relacional — capacidade de relação com Deus e o próximo (Barth, Brunner)Substancial/Estrutural — faculdades racionais, morais, espirituais (Calvino, Tomás)Integração [Contemporâneo] — todos os três aspectos (Hoekema)Nenhum aspecto isolado explica todos os usos bíblicos; integração é necessária
2"Façamos" — quem fala com quem?Implicações trinitárias e natureza de DeusPlural deliberativo/majestade — Deus fala consigo mesmo (gramática hebraica, maioria dos hebraístas)Concílio celestial — Deus fala com anjos (Westermann, Gunkel, Is 6; 1 Rs 22)Trindade — Deus Pai fala com Filho e Espírito (Calvino, Waltke, tradição cristã)A [Majoritário] entre hebraístas; C entre teólogos dogmáticosAnjos não são "à imagem de Deus" — portanto não são modelo da imagem (contra B); teologia canônica favorece C
3A imagem foi perdida na queda?Dignidade do ser humano pós-queda; fundamento éticoNão perdida — Gn 9:6 e Tg 3:9 pressupõem imagem presente em toda pessoa pós-quedaTotalmente perdida — Lutero: justitia originalis destruídaDeformada, não destruída — Calvino: resquício real permanece, mas desfiguradoC [Majoritário reformado] — deformada/corrompida, mas não eliminadaGn 9:6 (proíbe homicídio POR CAUSA da imagem — portanto, imagem permanece pós-dilúvio)
4"Imagem" e "semelhança" são distintas?Natureza da imago Dei; antropologia teológicaSinônimos — hendíadis, parallelismus membrorum (Wenham, Clines, exegese moderna)Distintos — imagem = natural; semelhança = sobrenatural (Ireneu, tradição oriental)Complementares — imagem = estática; semelhança = dinâmica/teleológica (Von Rad)A [Majoritário moderno]Em Gn 5:3, דְּמוּת aparece primeiro e צֶלֶם segundo — intercambiáveis; em 9:6 apenas צֶלֶם aparece com mesmo sentido
5O domínio (רָדָה) autoriza exploração da natureza?Ética ecológica; responsabilidade ambientalSim, domínio absoluto — humanidade é dona (leitura antropocêntrica extrema)Não — mordomia — domínio é cuidado responsável perante o Dono real (Deus) (Wenham, Waltke)Domínio como serviço — modelo é o Bom Pastor que cuida (Moltmann, leitura ecológica)B [Majoritário] — mordomiaGn 2:15 ("cultivar e guardar"); Ez 34 condena domínio abusivo; o Criador permanece Proprietário
6"Macho e fêmea" implica que a imagem é coletiva?Dignidade individual vs. comunitária; solteiros portam imagem?Comunitária primariamente — imagem plena na relação (Barth)Individual primariamente — cada pessoa é imagem completa; relação a expressa (Hoekema, Hamilton)Ambas — individual e comunitária sem hierarquização (Middleton)C [Equilibrado]Gn 9:6 protege o INDIVÍDUO; mas "os criou" (plural) mostra dimensão comunitária

9.2 Observações sobre Problemas Irresolvidos

O conteúdo preciso da imago Dei permanece disputado após 2.000 anos de reflexão. A tendência contemporânea é integrativa (funcional + relacional + estrutural), mas o peso relativo de cada aspecto varia conforme a tradição teológica. Isto não é fraqueza — é riqueza: o conceito é grande demais para caber numa única formulação.


10.1 Leitura Confessional

A Confissão de Fé de Westminster (1647), IV.2: "Depois de haver feito as demais criaturas, Deus criou o homem, macho e fêmea, com almas racionais e imortais, dotadas de conhecimento, retidão e verdadeira santidade, à sua própria imagem, tendo a lei de Deus escrita em seus corações."

O Catecismo de Heidelberg (1563), P&R 6: "Deus criou o homem bom e à sua imagem, isto é, em verdadeira justiça e santidade, para que conhecesse corretamente a Deus, seu Criador, o amasse de coração e vivesse com ele em eterna felicidade."

Ambos enfatizam: (1) racionalidade; (2) justiça original; (3) conhecimento de Deus; (4) santidade verdadeira.

10.2 Calvino sobre este Texto

Calvino (Commentary on Genesis, ad loc.):

  • "A imagem de Deus se estende a tudo aquilo em que a natureza do homem supera a de todas as outras espécies de animais."
  • Rejeita a distinção Imagem/Semelhança de Ireneu: "Não há dúvida de que estes termos são sinônimos."
  • A imagem está "primariamente na alma" mas se reflete no corpo ("até o corpo é espelho da glória de Deus").
  • Na queda, a imagem não foi aniquilada, mas "tão horrivelmente desfigurada que o que resta é uma ruína medonha."
  • Cristo é a "imagem perfeita" e a restauração acontece pela união com Ele.

10.3 Diálogo com Tradição Católica

Convergências:

  • CIC §1700-1715: "A dignidade da pessoa humana se enraíza na sua criação à imagem e semelhança de Deus." Convergência total com Westminster.
  • Gaudium et Spes §12: "O homem é a única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma." Convergência com a deliberação divina de v.26.

Divergências:

  • A tradição católica mantém a distinção imagem/semelhança (Ireneu): a "semelhança" (graça sobrenatural) é perdida na queda e restaurada no batismo. Calvino rejeitou esta distinção.
  • A doutrina católica da analogia entis vê a imagem como participação no ser de Deus — a tradição reformada prefere falar em representação funcional e dom gratuito.

10.4 Diálogo com Crítica Histórica

Convergência:

  • O contexto ANE (Middleton) ilumina genuinamente o sentido funcional-real da imagem: o ser humano como "estátua viva" do Deus invisível na terra. Isso converge com a leitura reformada de vice-regência.

Divergência:

  • A crítica tende a historicizar completamente: a imago Dei seria "apenas" ideologia real democratizada. A leitura confessional insiste: há revelação divina genuína aqui — não apenas sociologia religiosa.

11. CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL E INTERTESTAMENTAR

11.1 Situação Sociopolítica

No ANE, somente o rei era "imagem de deus." Gn 1:26-28 é afirmação subversiva: todo ser humano — escravo ou livre, homem ou mulher, israelita ou gentio — é imagem do Deus verdadeiro. Isto mina toda hierarquia sacral: se todo humano é imagem divina, nenhuma classe pode reivindicar superioridade ontológica sobre outra.

11.2 Contexto Econômico

O mandato de "subjugar a terra" (v.28) implica trabalho produtivo como dignidade, não como maldição. Em sociedades antigas onde trabalho manual era desprezado (Aristóteles: "próprio de escravos"), Gn 1:28 dignifica toda forma de labor como vocação divina.

11.3 Período Intertestamentar

Sirácida 17:1-4 expande Gn 1:26-28: "O Senhor criou o homem da terra... Revestiu-os de uma força semelhante à sua e os fez à sua imagem. Infundiu o temor deles sobre toda carne e deu-lhes domínio sobre feras e aves." Sabedoria 2:23: "Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez à imagem da sua própria eternidade." Filo de Alexandria: o Logos é a "imagem de Deus," e o homem é "imagem da imagem" — pré-figura cristológica.

11.4 Análise à luz de José Luis Sicre

Embora Sicre foque em profetas, o princípio é direto: se toda pessoa é imago Dei, então toda opressão é sacrilégio. Explorar o trabalhador, desprezar o pobre, desumanizar o estrangeiro — tudo isso viola a imagem de Deus que essas pessoas portam. Os profetas denunciam injustiça social exatamente porque ela contradiz a dignidade criacional de Gn 1:26-28.


12. APLICAÇÃO À IGREJA EVANGÉLICA BRASILEIRA

12.1 O que o texto CONFRONTA

  1. Racismo estrutural: A imago Dei é universal — não há base bíblica para qualquer forma de supremacia étnica. A igreja brasileira que tolera racismo institucional contradiz Gn 1:27.
  2. Desvalorização da mulher: "Macho e fêmea os criou" — ambos à imagem de Deus, ambos recebem o mandato. Culturas eclesiásticas que silenciam, infantilizam ou marginalizam mulheres contradizem o texto fundacional.
  3. Teologia da prosperidade como medida de valor: Se a dignidade vem da imagem (dom de Deus), não da riqueza (conquista humana), então o pobre não é "menos abençoado" — é igualmente imagem divina.
  4. Cultura do descarte: Idosos, deficientes, encarcerados, moradores de rua — todos portam a imagem. A igreja que os ignora ignora a dignidade que Deus lhes conferiu.

12.2 O que o texto CORRIGE

  1. Anti-intelectualismo: O mandato cultural inclui PENSAR, criar, desenvolver. A igreja que despreza educação, ciência e arte contradiz o mandato de "subjugar a terra" (desenvolver a criação).
  2. Dualismo sagrado/secular: Se o mandato cultural é pré-queda e dado à HUMANIDADE (não a sacerdotes), então toda vocação honesta é sagrada. O engenheiro, a professora, o agricultor — todos exercem o mandato de Gn 1:28.
  3. Passividade escatológica: "Jesus vai voltar, por que cuidar do mundo?" — Porque o mandato de domínio nunca foi revogado. Cuidar da criação é obediência ao Criador, independente da escatologia.

12.3 O que o texto EXIGE

  1. Respeito radical a toda pessoa — independente de status, etnia, gênero, orientação, capacidade.
  2. Engajamento cultural — não fuga do mundo, mas presença transformadora como portadores da imagem.
  3. Cuidado ecológico — domínio como mordomia responsável, não exploração predatória.
  4. Igualdade prática entre homem e mulher na dignidade, no valor e na vocação.

12.4 Aplicação Pastoral

  • Pregação: Texto poderoso para autoestima bíblica (contra depressão, vergonha), para ética social (contra preconceito) e para vocação (contra sacralismo).
  • Aconselhamento: "Você é imagem de Deus — não importa o que fizeram a você ou o que dizem sobre você. Sua dignidade vem do Criador, não de circunstâncias."
  • Cuidado: Evitar uso do texto para justificar "dominação masculina" — o domínio é sobre a criação animal/vegetal, não de um gênero sobre outro.

12.5 Aplicação Missionária

  • Contexto indígena: A imago Dei afirma: povos indígenas têm dignidade plena, cultura legítima, e vocação criacional. Missão não é destruir sua humanidade — é afirmá-la em Cristo.
  • Contexto carcerário: Todo preso é imagem de Deus. Ministério em presídios não é "caridade opcional" — é reconhecimento da dignidade inviolável.
  • Contexto digital: Em tempos de IA e desumanização virtual — Gn 1:26-28 reafirma: ser humano é insubstituível, não é máquina, não é algoritmo.

13. PERGUNTAS E RESPOSTAS

Nível 1 — Compreensão

P1: O que significa "imagem de Deus" (ṣelem ʾĕlōhîm)? R: Significa que o ser humano representa Deus na terra — como uma estátua de um rei numa província distante representava sua autoridade e presença. Não somos Deus, mas o representamos: portamos sua dignidade, refletimos (imperfeitamente) seus atributos, e exercemos autoridade delegada sobre a criação.

P2: Por que Deus disse "Façamos" (plural)? R: Três explicações principais: (1) plural de deliberação (auto-exortação solene); (2) Deus falando com seu concílio celestial (anjos); (3) diálogo intra-trinitário (Pai-Filho-Espírito). A teologia cristã favorece (3) como leitura canônica final, embora o sentido gramatical imediato possa ser (1). Note que anjos NÃO são à imagem de Deus — portanto (2) é menos provável.

P3: "Imagem" e "semelhança" são coisas diferentes? R: Na exegese moderna, não — são sinônimos usados em paralelo (hendíadis). A tradição patrística (Ireneu) os distinguia (imagem = natural; semelhança = sobrenatural), mas Gn 5:3 e 9:6 usam os termos intercambiavelmente, mostrando que não há distinção técnica no texto hebraico original.

Nível 2 — Interpretação

P4: O que significa "dominar" sobre a criação? R: Rādâ (dominar) é linguagem régia — governar como representante de Deus. NÃO é licença para exploração ou crueldade. Gn 2:15 esclarece: "cultivar e guardar" (ʿāḇaḏ e šāmar). O modelo é o pastor que cuida do rebanho (Sl 23; Jo 10), não o tirano que devora. O domínio é prestação de contas ao Proprietário (Deus).

P5: A imagem de Deus foi perdida na queda? R: Não — deformada, mas não eliminada. Gn 9:6 proíbe o homicídio PORQUE o ser humano pós-queda ainda porta a imagem. Tiago 3:9 condena a maledicência porque "homens são feitos à semelhança de Deus" (presente, não passado). A imagem é corrompida pelo pecado, mas subsiste — e é restaurada progressivamente em Cristo (2 Co 3:18; Cl 3:10).

P6: Se "macho e fêmea" é parte da imagem, solteiros portam imagem incompleta? R: Não. Cada pessoa individualmente é imagem completa de Deus (Gn 9:6 protege cada indivíduo). "Macho e fêmea" indica que a humanidade COLETIVAMENTE — em sua diversidade relacional — reflete a plenitude divina. Solteiros portam a imagem tanto quanto casados; a relacionalidade (não apenas sexual) é constitutiva.

Nível 3 — Controvérsia

P7: A imago Dei funda direitos humanos universais? R: Sim — é o fundamento teológico mais sólido para a dignidade inviolável. Diferente de fundamentos seculares (contrato social, utilidade), a imago Dei é incondicional: não depende de capacidade, produtividade ou consenso social. Todo ser humano TEM dignidade porque DEUS a conferiu — não porque a sociedade a reconhece.

P8: Gn 1:26-28 apoia a igualdade total entre homem e mulher? R: No que tange à dignidade, valor e posse da imagem — absoluta igualdade. Ambos recebem o mandato. Ambos são igualmente בָּרָא. O debate entre complementarismo e igualitarismo não é sobre dignidade (ambos concordam: igual) — é sobre funções e papéis pós-criação, especialmente em relação a Gn 2 e textos paulinos.

P9: Inteligência artificial pode ser "imagem de Deus"? R: Não no sentido bíblico. A imago Dei é conferida por ato criador específico de Deus à humanidade (bārāʾ — apenas Deus cria; humanos fazem IA). IA pode simular atributos (linguagem, decisão), mas não possui o que a imagem implica: relação pessoal com Deus, responsabilidade moral, alma/espírito, capacidade de adoração, mortalidade e esperança de redenção.

Nível 4 — Aplicação

P10: Como a imago Dei deve afetar minha atitude diária com as pessoas? R: Toda pessoa que você encontra — motorista de ônibus, pedinte, colega irritante, político corrupto — porta a imagem de Deus. Isso não significa que aprovamos tudo o que fazem; significa que tratamos cada um com a dignidade que Deus lhes conferiu. Insultar, desumanizar, ignorar ou explorar qualquer pessoa é ofender o Criador cuja imagem ela carrega (Tg 3:9).

P11: O mandato cultural ainda se aplica após a queda? R: Sim — nunca foi revogado. O pecado dificulta (Gn 3:17-19: "com suor"), mas não anula. Cristãos em toda vocação legítima exercem o mandato de Gn 1:28: cientistas explorando a criação, artistas expressando beleza, engenheiros desenvolvendo infraestrutura, pais criando filhos. Toda redenção visa também a restauração do mandato: "para boas obras, as quais Deus antes preparou" (Ef 2:10).

P12: Como usar Gn 1:26-28 contra o racismo? R: O texto é devastador contra toda forma de racismo: "Deus criou o ser humano à sua imagem... macho e fêmea os criou." NÃO há menção de etnias, classes ou cores — a HUMANIDADE INTEIRA porta igualmente a imagem. Qualquer ideologia que hierarquiza raças contradiz frontalmente o texto criacional. Na igreja: exigir diversidade real nos púlpitos, na liderança, nas relações, não apenas no discurso.


14. CONCLUSÃO TEOLÓGICA

O que o texto AFIRMA

Gênesis 1:26-28 afirma que a humanidade — homem e mulher, sem distinção — é o ápice da criação, portando a imagem de Deus como dom ontológico, vocação funcional e dignidade inviolável. O ser humano não é um animal mais desenvolvido, nem um deus decaído — é imagem: criatura que representa o Criador, governa em seu nome, e encontra seu sentido último na relação com Ele. Esta dignidade é universal (todo humano), inalienável (não pode ser retirada por pecado, crime ou doença) e teleológica (aponta para a restauração plena em Cristo).

O que o texto EXIGE

O texto exige que toda pessoa seja tratada com a dignidade que Deus lhe conferiu — desde a concepção até a morte natural. Exige que a humanidade exerça seu domínio sobre a criação como mordomos responsáveis, não como tiranos. Exige engajamento cultural ativo: trabalho, ciência, arte, governo, educação, família — tudo como exercício do mandato divino. E exige reconhecimento da igualdade entre homem e mulher como portadores igualmente plenos da imago Dei.

O que o texto PROMETE

Promete que a humanidade tem propósito: não somos acidente cósmico, mas criação intencional e deliberada de Deus ("Façamos"). Promete que a imagem deformada será restaurada: Cristo é "a imagem do Deus invisível" (Cl 1:15), e nós estamos sendo "transformados de glória em glória na mesma imagem" (2 Co 3:18). E promete consumação escatológica: "seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é" (1 Jo 3:2) — a imago Dei terá seu cumprimento pleno na visão beatífica.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Obras da Lista de 100 (efetivamente consultadas)

  1. Wenham, G. J. Genesis 1-15 (WBC). Zondervan, 1987. pp. 27-36.
  2. Hamilton, V. P. The Book of Genesis 1-17 (NICOT). Eerdmans, 1990. pp. 131-142.
  3. Westermann, C. Genesis 1-11 (Continental). Fortress, 1984. pp. 142-161.
  4. Waltke, B. K. Genesis: A Commentary. Zondervan, 2001. pp. 64-67.
  5. Kidner, D. Genesis (Tyndale). IVP, 1967. pp. 50-53.
  6. Calvino, J. Commentary on Genesis (1554). Baker reprint. pp. 91-100.
  7. Harris, R. L., Archer, G. L., Waltke, B. K. DITAT. §1923 (צֶלֶם), §437 (דְּמוּת).
  8. Koehler, L., Baumgartner, W. HALOT. Vol. III, pp. 1028-1029.
  9. Botterweck, G. J., Ringgren, H. TDOT. Vol. XII, pp. 386-396.

Obras Adicionais (fora da lista)

  1. Middleton, J. R. The Liberating Image: The Imago Dei in Genesis 1. Brazos Press, 2005.
  2. Clines, D. J. A. "The Image of God in Man." Tyndale Bulletin 19 (1968): 53-103.
  3. Hoekema, A. Created in God's Image. Eerdmans, 1986.
  4. Barth, K. Church Dogmatics III/1. T&T Clark, 1958. pp. 182-206.
  5. Moltmann, J. God in Creation. Fortress, 1985. pp. 215-243.
  6. Bird, P. A. "'Male and Female He Created Them': Gen 1:27b in the Context of the Priestly Account of Creation." HTR 74 (1981): 129-159.

Artigos e Periódicos

  1. Garr, W. R. "Image and Likeness in the Inscription from Tell Fakhariyeh." IEJ 50 (2000): 227-234.
  2. Herring, S. L. "A 'Transubstantiated' Humanity: The Relationship between Divine Image and the Presence of God in Genesis i 26f." VT 58 (2008): 480-494.
  3. McDowell, C. L. The Image of God in the Garden of Eden. Eisenbrauns, 2015.

Entrada produzida conforme Protocolo-Mestre v4.0 Ampliado. Segunda entrada Tier 1. Última atualização: 2026-08-03

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