Exegese verso a verso
Gênesis 1:2
GÊNESIS 1:26-28 — FAÇAMOS O HOMEM À NOSSA IMAGEM
Estudo Exegético — Estudo integral
1. CONTEXTO HISTÓRICO, LITERÁRIO E TEOLÓGICO
1.1 Contexto Histórico
No Antigo Oriente Próximo (ANE), a "imagem de deus" era prerrogativa exclusiva do rei. No Egito, o faraó era a "imagem viva" (ṣlm) de Rá ou Amon — representante divino na terra. Na Mesopotâmia, o rei era "imagem de Marduk" ou "imagem de Shamash." A revolução teológica de Gn 1:26-28 é a democratização radical desta dignidade: não apenas o rei, mas TODO ser humano — homem e mulher, sem distinção — é imagem de Deus. Isto subverte toda hierarquia sacral do ANE de uma só vez.
O contexto histórico imediato (seja mosaico ou pós-exílico) é de um povo oprimido. Israel no Egito era escravizado por um faraó que se autoproclamava "imagem divina." Gn 1:26-28 declara: o escravo hebreu carrega a mesma dignidade divina que o faraó — ambos são imago Dei. No exílio babilônico, onde os judeus eram desprezados por um império que divinizava seu rei, o texto reafirma: a humanidade toda, não o imperador, é portadora da imagem divina.
1.2 Contexto Literário
Gn 1:26-28 é o clímax da narrativa de criação (1:1–2:3). A estrutura dos seis dias segue um padrão de formação (dias 1-3) e enchimento (dias 4-6), com o ser humano como ápice do sexto dia — o último ato criativo antes do descanso sabático. Diferente de todas as outras criaturas (criadas por "haja..."), a humanidade é precedida por deliberação divina ("Façamos..."), indicando que este ato é qualitativamente distinto.
A estrutura literária de 1:26-28 é poética dentro da prosa:
- v.26a — deliberação divina (1ª pessoa plural: "façamos")
- v.26b — propósito: domínio sobre as criaturas
- v.27 — execução narrada em verso tripartite (três ocorrências de בָּרָא)
- v.28 — bênção e mandato (fecundidade + domínio)
1.3 Contexto Teológico
Este texto funda a antropologia bíblica inteira. Tudo que a Bíblia diz sobre dignidade humana, ética, pecado, redenção e escatologia pressupõe que o ser humano é imago Dei. A imagem é:
- Base da proibição do homicídio (Gn 9:6)
- Fundamento da igualdade humana (At 17:26; Gl 3:28)
- O que Cristo restaura plenamente (Cl 3:10; 2 Co 3:18)
- O destino escatológico: conformidade à imagem do Filho (Rm 8:29)
1.4 Delimitação da Perícope
Abertura (v. 26): Mudança de fórmula — "Façamos" (deliberação divina) rompe com o padrão anterior ("Haja...") Fechamento (v. 28): Conclusão da bênção; v. 29 muda para provisão alimentar (novo tópico)
| Tradução | Divisão | Nota |
|---|---|---|
| BHS | 1:26-28 como unidade | Deliberação + execução + bênção |
| ARA | 1:26-28 | Mesma delimitação |
| NVI | 1:26-28 | Mesma delimitação |
2. CRÍTICA TEXTUAL
2.1 Texto Base
Hebraico (BHS):
v.26: וַיֹּ֣אמֶר אֱלֹהִ֔ים נַֽעֲשֶׂ֥ה אָדָ֛ם בְּצַלְמֵ֖נוּ כִּדְמוּתֵ֑נוּ וְיִרְדּוּ֩ בִדְגַ֨ת הַיָּ֜ם וּבְע֣וֹף הַשָּׁמַ֗יִם וּבַבְּהֵמָה֙ וּבְכָל־הָאָ֔רֶץ וּבְכָל־הָרֶ֖מֶשׂ הָֽרֹמֵ֥שׂ עַל־הָאָֽרֶץ׃
v.27: וַיִּבְרָ֨א אֱלֹהִ֤ים ׀ אֶת־הָֽאָדָם֙ בְּצַלְמ֔וֹ בְּצֶ֥לֶם אֱלֹהִ֖ים בָּרָ֣א אֹת֑וֹ זָכָ֥ר וּנְקֵבָ֖ה בָּרָ֥א אֹתָֽם׃
v.28: וַיְבָ֣רֶךְ אֹתָם֮ אֱלֹהִים֒ וַיֹּ֨אמֶר לָהֶ֜ם אֱלֹהִ֗ים פְּר֥וּ וּרְב֛וּ וּמִלְא֥וּ אֶת־הָאָ֖רֶץ וְכִבְשֻׁ֑הָ וּרְד֞וּ בִּדְגַ֤ת הַיָּם֙ וּבְע֣וֹף הַשָּׁמַ֔יִם וּבְכָל־חַיָּ֖ה הָֽרֹמֶ֥שֶׂת עַל־הָאָֽרֶץ׃
Tradução de trabalho:
v.26: "E disse Deus: Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme nossa semelhança; e que domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que rasteja sobre a terra."
v.27: "E criou Deus o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou."
v.28: "E abençoou-os Deus e disse-lhes Deus: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra e subjugai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que rasteja sobre a terra."
2.2 Aparato Crítico
| Testemunho | Leitura | Diferença | Avaliação |
|---|---|---|---|
| TM | נַעֲשֶׂה אָדָם בְּצַלְמֵנוּ כִּדְמוּתֵנוּ | Base de trabalho | Adotado |
| LXX | Ποιήσωμεν ἄνθρωπον κατ᾽ εἰκόνα ἡμετέραν καὶ καθ᾽ ὁμοίωσιν | "Segundo imagem nossa e conforme semelhança" — distingue εἰκών (imagem) de ὁμοίωσις (semelhança) | Confirma TM; distinção será explorada pelos Pais |
| Targum Onkelos | נעביד אדם בצלמנא כדמותנא | Segue TM fielmente | Confirma |
| Peshitta | Segue TM | — | Confirma |
| Vulgata | faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram | "ad" (para/em direção a) sugere teleologia | Nuance latina, não variante |
| Samaritano | Idêntico ao TM | — | Confirma |
2.3 Conclusão Textual
Nenhuma variante textual significativa. O texto é estável em toda a tradição. A única questão interpretativa levantada pelas versões é a distinção entre "imagem" (צֶלֶם / εἰκών) e "semelhança" (דְּמוּת / ὁμοίωσις) — que é hermenêutica, não textual.
3. ESTRUTURA DO TEXTO
3.1 Diagrama Estrutural
A — v.26a DELIBERAÇÃO: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme nossa semelhança"
B — v.26b PROPÓSITO: "e domine sobre..." (5 categorias de criaturas)
A' — v.27 EXECUÇÃO: "E criou Deus o homem à sua imagem"
(estrutura tricolon: criou/criou/criou — 3x בָּרָא)
B' — v.28 BÊNÇÃO + MANDATO: "Frutificai... enchei... dominai"
3.2 Análise da Estrutura
A perícope segue o padrão Deliberação → Execução → Bênção:
- Deliberação (v.26): Deus anuncia sua intenção em 1ª pessoa plural
- Execução (v.27): O narrador relata o ato criativo — verso poético tripartite
- Bênção (v.28): Deus fala diretamente à humanidade — mandato de fecundidade e domínio
O v.27 é especialmente notável por sua forma poética dentro da prosa narrativa:
(a) E criou Deus o ser humano à sua imagem
(b) à imagem de Deus o criou
(c) macho e fêmea os criou
O tricolon com repetição de בָּרָא (3x) intensifica: este ato é criação no sentido mais pleno. A progressão vai de geral → específico → diferenciação sexual.
3.3 Padrão Retórico
- Deliberação divina ("façamos") — única no relato; eleva a humanidade acima de todas as demais criaturas
- Repetição tripla de בָּרָא (v.27) — marca solene de novidade ontológica
- Paralelismo sintético — cada linha acrescenta informação nova
- Mérismo de gênero — "macho e fêmea" = humanidade completa
4. QUADRO I — TERMOS-CHAVE
4.1 Tabela Lexical
| # | Termo Original | Transliteração | Forma | Campo Semântico | Uso Neste Texto | Ocorrências (Gn/AT/Bíblia) | Peso Teológico | Aplicação Hoje |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | צֶלֶם | ṣelem | Subst. masc. sg. | Imagem, estátua, representação | Representação visível de Deus na terra — função + ontologia | 5/17/17 | Fundamento de toda dignidade humana | Todo ser humano — sem exceção — carrega dignidade inviolável |
| 2 | דְּמוּת | dᵉmûṯ | Subst. fem. sg. | Semelhança, parecença, modelo | Correspondência relacional com Deus (não identidade) | 3/25/25 | Esclarece que a imagem é analógica, não ontológica | Semelhança implica capacidade relacional com Deus |
| 3 | אָדָם | ʾādām | Subst. masc. sg. (coletivo) | Ser humano, humanidade, homem | Coletivo: designa toda a espécie humana (v.27: "os criou") | 28/562/562 | Humanidade como unidade — solidariedade adâmica | Ninguém está fora; toda pessoa é "adam" |
| 4 | רָדָה | rādâ | Verbo Qal impf. 3mpl | Dominar, governar, pastorear | Domínio delegado sobre a criação animal | 2/25/25 | Autoridade como mordomia, não tirania | Liderança cristã é serviço, não exploração |
| 5 | כָּבַשׁ | kāḇaš | Verbo Qal impv. 2mpl | Subjugar, pisar, conquistar | Mandato de tornar a terra habitável e produtiva | 1/14/14 | Mandato cultural — desenvolver, cultivar, organizar | Trabalho humano é vocação divina |
| 6 | זָכָר | zāḵār | Subst. masc. sg. | Macho, masculino | Diferenciação sexual como parte da criação "muito boa" | 2/82/82 | Sexualidade é boa, criada, intencional | Gênero não é construção arbitrária — é design |
| 7 | נְקֵבָה | nᵉqēḇâ | Subst. fem. sg. | Fêmea, feminino | Complemento do macho na imagem de Deus | 2/22/22 | Mulher igualmente portadora da imago Dei | Igualdade ontológica absoluta entre homem e mulher |
| 8 | נַעֲשֶׂה | naʿăśê | Verbo Qal coort. 1cpl | Façamos (fazer) | Deliberação divina — plural coortativo | 1/— | "Façamos" — abertura trinitária ou plural deliberativo | Deus é pessoal, relacional, dialógico |
4.2 Fontes Lexicais Consultadas
- DITAT §1923 (צֶלֶם), §437 (דְּמוּת), §25 (אָדָם), §2121 (רָדָה), §951 (כָּבַשׁ)
- HALOT vol. III, pp. 1028-1029 (צֶלֶם); vol. I, pp. 225-226 (דְּמוּת)
- TDOT vol. XII, pp. 386-396 (צֶלֶם — Stendebach)
- NIDOTTE vol. IV, pp. 643-648 (צֶלֶם)
- Clines, D. J. A. "The Image of God in Man." Tyndale Bulletin 19 (1968): 53-103.
4.3 Observações Lexicais
Sobre צֶלֶם vs. דְּמוּת: A tradição patrística (especialmente Ireneu) distinguiu rigidamente: "imagem" = atributos naturais (razão, vontade); "semelhança" = atributos sobrenaturais (santidade, perdidos na queda). A exegese moderna reconhece que no hebraico os termos são praticamente sinônimos usados em paralelo (hendíadis) — a preposição כְּ (conforme) em כִּדְמוּתֵנוּ qualifica/explica בְּצַלְמֵנוּ, não acrescenta categoria diferente.
Sobre רָדָה: O verbo implica autoridade real — o rei "domina" (רָדָה) sobre seu território (1 Rs 5:4; Sl 72:8; Ez 34:4). Mas no contexto de Gn 1, onde Deus acabou de criar tudo "bom," o domínio é cuidado responsável, não exploração destrutiva. Ezequiel 34:4 condena os pastores que "dominam com rigor" (רָדָה בְפָרֶךְ) — mostrando que o verbo pode ser usado abusivamente.
Sobre "Façamos" (נַעֲשֶׂה): Quatro interpretações principais: (1) Plural de deliberação/majestade; (2) Deus falando com o concílio celestial (anjos); (3) Pré-indicação trinitária; (4) Plural de auto-exortação. A teologia cristã favorece (3) como interpretação canônica final, sem excluir que o sentido literal imediato possa ser (1) ou (2).
5. EXEGESE VERSÍCULO-POR-VERSÍCULO
Versículo 1:26
וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים נַעֲשֶׂה אָדָם בְּצַלְמֵנוּ כִּדְמוּתֵנוּ וְיִרְדּוּ בִדְגַת הַיָּם... "E disse Deus: Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme nossa semelhança; e que domine sobre..."
Análise gramatical:
- Verbo introdutório: וַיֹּאמֶר — wayyiqtol (narrativa sequencial)
- Verbo principal: נַעֲשֶׂה — Qal coortativo 1ª pessoa comum plural ("façamos")
- Objeto: אָדָם — sem artigo: "ser humano" genérico/coletivo
- Modificadores: בְּצַלְמֵנוּ כִּדְמוּתֵנוּ — dois sintagmas preposicionais paralelos
- Propósito: וְיִרְדּוּ — Qal jussivo 3mpl: "e que dominem" (propósito/consequência)
Semântica contextual:
A mudança de "Haja..." (impessoal, 3ª pessoa) para "Façamos..." (1ª pessoa plural deliberativa) é a ruptura mais significativa do relato. Nenhuma outra criatura recebe deliberação prévia. O verbo עָשָׂה (fazer) é usado em vez de בָּרָא (criar) — mas v.27 usará בָּרָא três vezes, mostrando que ambos coexistem. A diferença: עָשָׂה enfatiza a ação artesanal deliberada; בָּרָא marca a novidade ontológica.
Exegese:
O "Façamos" é o momento mais solene de toda a narrativa de criação. Deus, que até aqui criou por decreto impessoal ("Haja luz"), agora se detém, delibera, e anuncia sua intenção. A humanidade não é "mais uma criatura" — é o telos de todo o processo criativo, o ápice para o qual tudo converge. A deliberação divina confere à humanidade uma dignidade que nenhum outro ser criado possui: somos resultado de intenção específica, não de decreto genérico.
O duplo prepositional "à nossa imagem, conforme nossa semelhança" funciona como hendíadis — dois termos expressando uma realidade: a humanidade corresponde a Deus de maneira análoga (não idêntica). Ṣelem (de raiz que pode significar "esculpir") enfatiza representação concreta; dᵉmûṯ (de raiz "ser semelhante") suaviza: não somos Deus, somos como Deus.
Conexão com o argumento:
O v.26 estabelece o mandato de domínio como consequência da imagem: PORQUE somos imagem de Deus, PORTANTO dominamos. O domínio não é a imagem — é resultado dela. Quem porta a imagem do Rei governa em nome do Rei.
Versículo 1:27
וַיִּבְרָא אֱלֹהִים אֶת־הָאָדָם בְּצַלְמוֹ בְּצֶלֶם אֱלֹהִים בָּרָא אֹתוֹ זָכָר וּנְקֵבָה בָּרָא אֹתָם׃ "E criou Deus o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou."
Análise gramatical:
- Três orações com בָּרָא — tricolon poético dentro da prosa
- Linha (a): wayyiqtol + objeto definido (אֶת־הָאָדָם) + בְּצַלְמוֹ (à sua imagem — sufixo 3ms)
- Linha (b): בְּצֶלֶם אֱלֹהִים — repetição enfática ("à imagem de DEUS")
- Linha (c): זָכָר וּנְקֵבָה — mérismo de gênero; "os criou" (אֹתָם — plural)
- Transição singular → plural: "o criou" (אֹתוֹ) → "os criou" (אֹתָם)
Semântica contextual:
O uso triplo de בָּרָא marca este como o ato criativo supremo — mais enfático que Gn 1:1 (uma ocorrência). A progressão semântica é:
- Deus criou o ser humano à sua imagem (relação Criador-criatura)
- À imagem de Deus o criou (ênfase na fonte: é a imagem DE DEUS, não de outro)
- Macho e fêmea os criou (a imagem inclui ambos — nenhum gênero sozinho é imagem completa)
Exegese:
Este é possivelmente o versículo mais denso teologicamente de toda a Escritura. Em três linhas, o autor estabelece:
(a) A humanidade é criada (bārāʾ — novidade radical) à imagem de Deus. Isto é afirmação ontológica: não é algo que fazemos, é algo que SOMOS. A imagem não é perdida na queda (Gn 9:6 pressupõe que assassinar um ser humano pós-queda ainda é atacar a imagem de Deus).
(b) A repetição "à imagem de Deus" enfatiza a fonte: a dignidade humana não é auto-atribuída, não é mérito conquistado — é dom do Criador. Remove todo fundamento para discriminação: se a fonte é Deus, nenhum ser humano pode ser declarado "menos imagem" que outro.
(c) "Macho e fêmea" — a diferenciação sexual é declarada DENTRO da imago Dei, não como adição posterior. Ambos os sexos portam igualmente a imagem divina. A complementaridade sexual é design criacional, não construção cultural. E a imagem é plural: "os criou" — a imagem de Deus é plenamente manifestada na humanidade relacional, não no indivíduo isolado.
Conexão com o argumento:
V.27 executa o que v.26 deliberou, mas acrescenta a especificação crucial: "macho e fêmea." A relacionalidade humana (expressa primariamente na complementaridade sexual, mas não limitada a ela) espelha a relacionalidade divina (implícita no "façamos" do v.26).
Versículo 1:28
וַיְבָרֶךְ אֹתָם אֱלֹהִים וַיֹּאמֶר לָהֶם... פְּרוּ וּרְבוּ וּמִלְאוּ אֶת־הָאָרֶץ וְכִבְשֻׁהָ וּרְדוּ... "E abençoou-os Deus e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra e subjugai-a; e dominai..."
Análise gramatical:
- וַיְבָרֶךְ — Piel wayyiqtol: "abençoou" — bênção é ato performativo divino
- Imperativos: פְּרוּ (frutificai), וּרְבוּ (multiplicai), מִלְאוּ (enchei), כִבְשֻׁהָ (subjugai-a), וּרְדוּ (dominai) — cinco imperativos que constituem o mandato cultural
- Objetos do domínio: peixes, aves, todo animal (três categorias = totalidade)
Semântica contextual:
A bênção (בָּרַךְ) é o primeiro ato divino direcionado à humanidade — antes de qualquer mandamento ou proibição. A primeira palavra de Deus para o ser humano não é lei, é bênção. Os cinco imperativos se dividem em dois grupos:
- Fecundidade: frutificai + multiplicai + enchei (capacidade reprodutiva)
- Domínio: subjugai + dominai (autoridade sobre a terra e os animais)
Exegese:
A bênção divina capacita o mandato. Deus não apenas ordena — Ele habilita. "Frutificai e multiplicai-vos" não é mero comando reprodutivo; é delegação de poder criativo: a humanidade participará (analogicamente) do ato criador de Deus ao gerar vida nova. "Enchei a terra" não é mero imperativo demográfico — é vocação de presença: a imagem de Deus deve preencher toda a terra, não ficar confinada a um jardim.
"Subjugai-a" (כִּבְשֻׁהָ) é o verbo mais forte — pode significar "pisar sob os pés" (militarmente). No contexto pré-queda, significa: a terra tem potencial não realizado; a humanidade deve desenvolvê-lo, torná-la produtiva, habitável, ordenada. É o fundamento bíblico de toda atividade cultural, científica e tecnológica legítima.
"Dominai" (רְדוּ) sobre os animais é autoridade real delegada. O ser humano é vice-regente de Deus — governa em nome do Criador. Isto implica prestação de contas: o mordomo responde ao Proprietário.
Conexão com o argumento:
V.28 completa a sequência: Deus delibera (v.26), executa (v.27), e agora abençoa e comissiona (v.28). A humanidade não existe para si mesma — existe para Deus, e sua vocação é exercer domínio responsável sobre a criação como representante do Criador.
6. PRINCIPAIS TEMAS TEOLÓGICOS
Tema 1: Dignidade Universal e Inviolável do Ser Humano
A imago Dei é o fundamento bíblico de toda dignidade humana. Não se baseia em capacidade (inteligência, saúde, produtividade), status (riqueza, poder, etnia) ou merecimento — baseia-se exclusivamente no ato criador de Deus. Isto gera consequências radicais: o feto, o idoso com demência, o deficiente, o prisioneiro, o inimigo — todos portam a imagem. Gn 9:6 torna explícito: assassinar um ser humano é atacar a imagem de Deus.
Paralelos canônicos: Gn 5:1-3; 9:6; Sl 8:4-8; Tg 3:9 ("Com ela [a língua] amaldiçoamos homens feitos à semelhança de Deus"). Conexão com teologia sistemática: Antropologia teológica; ética da vida; direitos humanos fundados teologicamente.
Tema 2: Relacionalidade como Constitutiva da Imagem
"Façamos" (plural) → "macho e fêmea os criou" (plural). A imagem de Deus não é propriedade de um indivíduo isolado — manifesta-se na comunidade, na relação, no encontro. O ser humano é criado PARA relação: com Deus (verticalidade), com o próximo (horizontalidade), com a criação (mordomia). Karl Barth desenvolveu esta ideia: a imago Dei é fundamentalmente relacional (Ich-Du), não substancial.
Paralelos canônicos: Gn 2:18 ("Não é bom que o homem esteja só"); Ec 4:9-12; Jo 17:21-23 (a unidade dos discípulos reflete a unidade trinitária). Conexão com teologia sistemática: Trindade como modelo de comunidade; eclesiologia como imago Dei corporativa.
Tema 3: Mandato Cultural e Vocação no Mundo
O domínio delegado (v.26b, 28b) funda o que a teologia reformada chama de "mandato cultural": a humanidade é chamada a desenvolver a criação — agricultura, ciência, arte, tecnologia, governo, educação — como extensão do propósito criador de Deus. O trabalho não é maldição (isso vem depois, em 3:17-19) — é vocação original.
Paralelos canônicos: Sl 8:6 ("Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos"); Pv 31:10-31 (mulher virtuosa: realização cultural); Cl 3:23 ("Tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor"). Conexão com teologia sistemática: Vocação (Lutero, Calvino); esfera da graça comum (Kuyper); cosmovisão cristã integral.
Tema 4: Igualdade de Gênero na Imago Dei
"Macho e fêmea os criou" — AMBOS à imagem de Deus, AMBOS abençoados, AMBOS recebem o mandato de domínio. Não há hierarquia na criação originária entre homem e mulher no que tange à dignidade, ao valor ou à posse da imagem. Qualquer subordinação que surja posteriormente (Gn 3:16) é resultado da queda, não do design criacional.
Paralelos canônicos: Gl 3:28 ("não há macho nem fêmea, pois todos vós sois um em Cristo Jesus"); Gn 2:18-23 (mulher como ʿēzer kᵉneḡdô — ajudadora correspondente, não inferior). Conexão com teologia sistemática: Complementarismo vs. igualitarismo; dignidade feminina; ética sexual.
Tema 5: Cristo como Imagem Perfeita e Restauração
O NT identifica Cristo como "a imagem do Deus invisível" (Cl 1:15) — a imago Dei em perfeição. Onde Adão falhou (a imagem deformada pelo pecado), Cristo restaura (2 Co 3:18; Rm 8:29: "conformes à imagem de seu Filho"). A escatologia cristã é re-imagificação: seremos como Ele é (1 Jo 3:2).
Paralelos canônicos: Cl 1:15; 2 Co 4:4; Hb 1:3 ("resplendor da glória e expressão exata do seu ser"); Rm 8:29; 1 Co 15:49 ("assim como trouxemos a imagem do terrestre, traremos também a imagem do celestial"). Conexão com teologia sistemática: Cristologia (Cristo como segundo Adão); soteriologia (salvação como restauração da imagem); escatologia (glorificação).
7. QUADRO II — PAINEL DE TEÓLOGOS (10 Especialistas)
7.1 Tabela Consolidada
| # | Teólogo | Tradição/Método | Obra Consultada | Tese sobre Gn 1:26-28 | Contribuição Distintiva | Crítica Recebida | Confiabilidade |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Claus Westermann | Crítica das formas | Genesis 1-11 (Continental) | A imagem é o ser humano inteiro — não uma parte ou faculdade; é relação com Deus, não substância | Rejeita redução da imagem a "razão" ou "alma" | Minimiza distinção qualitativa humano-animal | Alta |
| 2 | Gordon J. Wenham | Evangélico, literário | Genesis 1-15 (WBC) | Imagem = representação real de Deus na terra; como estátua de rei em província distante | Combina função (vice-regência) com ontologia (dignidade intrínseca) | Pode ser vago sobre conteúdo preciso da imagem | Alta |
| 3 | J. Richard Middleton | Evangélico, ANE | The Liberating Image (2005) | Imagem é primariamente funcional/vocacional: representar Deus pelo domínio justo sobre a criação | Contexto ANE rigoroso; "democratização da imagem real" | Pode minimizar aspecto ontológico | Alta (referência moderna) |
| 4 | D. J. A. Clines | Crítico | "The Image of God in Man" (TB 19, 1968) | Imagem é a totalidade da pessoa humana como representante de Deus; não é "parte" do humano | Artigo seminal; demonstra que imagem não é razão, alma ou corpo separadamente | Datado; não atualizado | Alta (clássico) |
| 5 | Karl Barth | Neo-ortodoxia | Church Dogmatics III/1 | A imago Dei é fundamentalmente relacional (Ich-Du): "macho e fêmea" é o conteúdo da imagem | Insight relacional brilhante; conecta imago Dei à Trindade | Criticado por reduzir imagem apenas a relação; ignora aspecto funcional | Média-Alta |
| 6 | Anthony Hoekema | Reformado | Created in God's Image (1986) | Imagem tem três aspectos: estrutural (capacidades), funcional (domínio), relacional (comunhão) | Síntese equilibrada das três dimensões | Pode parecer eclético demais | Alta (referência reformada) |
| 7 | Victor P. Hamilton | Evangélico (NICOT) | The Book of Genesis 1-17 | "Façamos" é plural de auto-deliberação; imagem inclui tanto constituição quanto função | Equilibrado, exegeticamente sólido | Conservador sem inovação significativa | Alta |
| 8 | Bruce K. Waltke | Reformado | Genesis: A Commentary | Imagem significa que o humano é representante de Deus; o "façamos" é deliberação intra-trinitária | Conexão forte entre imago Dei e mandato régio | Nem todos aceitam leitura trinitária do "façamos" | Alta |
| 9 | João Calvino | Reforma | Commentary on Genesis (1554) | A imagem inclui tudo que distingue o humano do animal: razão, justiça original, retidão — mas foi "horrivelmente deformada" na queda, não destruída | Doutrina do "resquício" (remanescente) da imagem pós-queda | Tende a intelectualizar a imagem (enfatiza razão) | Alta (confessional) |
| 10 | Jürgen Moltmann | Teologia da esperança | God in Creation (1985) | A imago Dei aponta escatologicamente: o ser humano é imagem do Deus que vem — criado para o futuro de Deus, não apenas do passado | Dimensão escatológica e pneumatológica da imagem | Pode minimizar a realidade presente da imagem | Média-Alta |
7.2 Síntese do Painel
Consenso: A imago Dei não é redutível a uma faculdade (razão, alma, consciência) — é a totalidade do ser humano em relação com Deus, com o próximo e com a criação. A imagem inclui função (representar e governar) e dignidade (valor intrínseco).
Divergência principal: A ênfase relativa entre os aspectos: funcional/vocacional (Middleton, Clines), relacional (Barth), substancial/estrutural (Calvino, tradição escolástica). A síntese moderna (Hoekema) tenta integrar os três.
Contribuição mais original: Middleton ("democratização da imagem real" no ANE) e Barth (imagem como relação Ich-Du fundada em "macho e fêmea").
8. HISTÓRIA DA RECEPÇÃO
8.1 Período Patrístico (séc. I-V)
Ireneu (Adversus Haereses V.6.1) distinguiu "imagem" (aspectos naturais preservados após a queda: razão, liberdade) de "semelhança" (santidade original, perdida na queda e restaurada em Cristo). Esta distinção dominou por séculos. Agostinho (De Trinitate XII-XIV) localizou a imagem nas faculdades trinitárias da alma: memória, inteligência, vontade — espelho da Trindade. Gregório de Nissa enfatizou liberdade e capacidade de auto-determinação.
8.2 Idade Média (séc. VI-XV)
Tomás de Aquino (ST I, q.93) desenvolveu: a imagem consiste primariamente no intelecto (capax Dei — capacidade de conhecer Deus). Três graus: (1) natural (todo humano); (2) graça (os justificados); (3) glória (os bem-aventurados). A escolástica tendeu a intelectualizar a imagem, identificando-a com a alma racional.
8.3 Reforma (séc. XVI)
Lutero: a imagem consistia primariamente em justitia originalis (justiça original) — e foi totalmente perdida na queda. Calvino: a imagem estava "em todas as partes da alma" mas foi "horrivelmente deformada" (não destruída) pelo pecado. Calvino rejeitou a distinção imagem/semelhança de Ireneu como "falsa sutileza." A Reforma enfatizou a necessidade de Cristo para restaurar a imagem.
8.4 Período Moderno (séc. XVII-XX)
Barth (1945): a imagem é relação (confronto Eu-Tu), não substância — rejeição de toda localização anatômica ou psicológica. Brunner: a imagem é "responsividade" — capacidade de responder a Deus. O debate Barth-Brunner (1934) sobre "ponto de contato" (Anknüpfungspunkt) dividiu a teologia reformada: Barth nega qualquer resquício natural; Brunner afirma capacidade formal (não material) preservada.
8.5 Contemporâneo (séc. XXI)
Middleton (2005): abordagem funcional-real (ANE). Leituras pós-coloniais: a imago Dei como fundamento para direitos humanos universais e contra toda forma de desumanização (escravidão, racismo, genocídio). Neurociência e IA levantam novas questões: se a imagem depende de consciência, o que dizer de estados vegetativos? E de IA com "consciência"?
8.6 Usos Indevidos Históricos
- Racismo: A "maldição de Cam" (Gn 9:25) foi usada para negar a imago Dei a africanos — distorção hermenêutica grotesca refutada pelo texto: "macho e fêmea" = toda humanidade, sem distinção étnica.
- Sexismo: A imagem foi atribuída primariamente ao homem, com a mulher como "imagem derivada" — contradição direta de v.27c ("macho e fêmea os criou").
- Especismo radical: Usado para justificar crueldade com animais ("somente humanos importam") — distorção do mandato de domínio responsável.
9. QUADRO III — PROBLEMAS TEOLÓGICOS E SOLUÇÕES
9.1 Tabela de Problemas Disputados
| # | Problema/Questão | O que está em jogo | Solução A | Solução B | Solução C | Mais Aceita | Fundamento Decisivo |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | O que é a "imagem de Deus"? (conteúdo) | Definição da dignidade humana e sua base | Funcional — representar Deus governando a criação (Middleton, Clines) | Relacional — capacidade de relação com Deus e o próximo (Barth, Brunner) | Substancial/Estrutural — faculdades racionais, morais, espirituais (Calvino, Tomás) | Integração [Contemporâneo] — todos os três aspectos (Hoekema) | Nenhum aspecto isolado explica todos os usos bíblicos; integração é necessária |
| 2 | "Façamos" — quem fala com quem? | Implicações trinitárias e natureza de Deus | Plural deliberativo/majestade — Deus fala consigo mesmo (gramática hebraica, maioria dos hebraístas) | Concílio celestial — Deus fala com anjos (Westermann, Gunkel, Is 6; 1 Rs 22) | Trindade — Deus Pai fala com Filho e Espírito (Calvino, Waltke, tradição cristã) | A [Majoritário] entre hebraístas; C entre teólogos dogmáticos | Anjos não são "à imagem de Deus" — portanto não são modelo da imagem (contra B); teologia canônica favorece C |
| 3 | A imagem foi perdida na queda? | Dignidade do ser humano pós-queda; fundamento ético | Não perdida — Gn 9:6 e Tg 3:9 pressupõem imagem presente em toda pessoa pós-queda | Totalmente perdida — Lutero: justitia originalis destruída | Deformada, não destruída — Calvino: resquício real permanece, mas desfigurado | C [Majoritário reformado] — deformada/corrompida, mas não eliminada | Gn 9:6 (proíbe homicídio POR CAUSA da imagem — portanto, imagem permanece pós-dilúvio) |
| 4 | "Imagem" e "semelhança" são distintas? | Natureza da imago Dei; antropologia teológica | Sinônimos — hendíadis, parallelismus membrorum (Wenham, Clines, exegese moderna) | Distintos — imagem = natural; semelhança = sobrenatural (Ireneu, tradição oriental) | Complementares — imagem = estática; semelhança = dinâmica/teleológica (Von Rad) | A [Majoritário moderno] | Em Gn 5:3, דְּמוּת aparece primeiro e צֶלֶם segundo — intercambiáveis; em 9:6 apenas צֶלֶם aparece com mesmo sentido |
| 5 | O domínio (רָדָה) autoriza exploração da natureza? | Ética ecológica; responsabilidade ambiental | Sim, domínio absoluto — humanidade é dona (leitura antropocêntrica extrema) | Não — mordomia — domínio é cuidado responsável perante o Dono real (Deus) (Wenham, Waltke) | Domínio como serviço — modelo é o Bom Pastor que cuida (Moltmann, leitura ecológica) | B [Majoritário] — mordomia | Gn 2:15 ("cultivar e guardar"); Ez 34 condena domínio abusivo; o Criador permanece Proprietário |
| 6 | "Macho e fêmea" implica que a imagem é coletiva? | Dignidade individual vs. comunitária; solteiros portam imagem? | Comunitária primariamente — imagem plena na relação (Barth) | Individual primariamente — cada pessoa é imagem completa; relação a expressa (Hoekema, Hamilton) | Ambas — individual e comunitária sem hierarquização (Middleton) | C [Equilibrado] | Gn 9:6 protege o INDIVÍDUO; mas "os criou" (plural) mostra dimensão comunitária |
9.2 Observações sobre Problemas Irresolvidos
O conteúdo preciso da imago Dei permanece disputado após 2.000 anos de reflexão. A tendência contemporânea é integrativa (funcional + relacional + estrutural), mas o peso relativo de cada aspecto varia conforme a tradição teológica. Isto não é fraqueza — é riqueza: o conceito é grande demais para caber numa única formulação.
10. INTERPRETAÇÃO REFORMADA EM DIÁLOGO
10.1 Leitura Confessional
A Confissão de Fé de Westminster (1647), IV.2: "Depois de haver feito as demais criaturas, Deus criou o homem, macho e fêmea, com almas racionais e imortais, dotadas de conhecimento, retidão e verdadeira santidade, à sua própria imagem, tendo a lei de Deus escrita em seus corações."
O Catecismo de Heidelberg (1563), P&R 6: "Deus criou o homem bom e à sua imagem, isto é, em verdadeira justiça e santidade, para que conhecesse corretamente a Deus, seu Criador, o amasse de coração e vivesse com ele em eterna felicidade."
Ambos enfatizam: (1) racionalidade; (2) justiça original; (3) conhecimento de Deus; (4) santidade verdadeira.
10.2 Calvino sobre este Texto
Calvino (Commentary on Genesis, ad loc.):
- "A imagem de Deus se estende a tudo aquilo em que a natureza do homem supera a de todas as outras espécies de animais."
- Rejeita a distinção Imagem/Semelhança de Ireneu: "Não há dúvida de que estes termos são sinônimos."
- A imagem está "primariamente na alma" mas se reflete no corpo ("até o corpo é espelho da glória de Deus").
- Na queda, a imagem não foi aniquilada, mas "tão horrivelmente desfigurada que o que resta é uma ruína medonha."
- Cristo é a "imagem perfeita" e a restauração acontece pela união com Ele.
10.3 Diálogo com Tradição Católica
Convergências:
- CIC §1700-1715: "A dignidade da pessoa humana se enraíza na sua criação à imagem e semelhança de Deus." Convergência total com Westminster.
- Gaudium et Spes §12: "O homem é a única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma." Convergência com a deliberação divina de v.26.
Divergências:
- A tradição católica mantém a distinção imagem/semelhança (Ireneu): a "semelhança" (graça sobrenatural) é perdida na queda e restaurada no batismo. Calvino rejeitou esta distinção.
- A doutrina católica da analogia entis vê a imagem como participação no ser de Deus — a tradição reformada prefere falar em representação funcional e dom gratuito.
10.4 Diálogo com Crítica Histórica
Convergência:
- O contexto ANE (Middleton) ilumina genuinamente o sentido funcional-real da imagem: o ser humano como "estátua viva" do Deus invisível na terra. Isso converge com a leitura reformada de vice-regência.
Divergência:
- A crítica tende a historicizar completamente: a imago Dei seria "apenas" ideologia real democratizada. A leitura confessional insiste: há revelação divina genuína aqui — não apenas sociologia religiosa.
11. CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL E INTERTESTAMENTAR
11.1 Situação Sociopolítica
No ANE, somente o rei era "imagem de deus." Gn 1:26-28 é afirmação subversiva: todo ser humano — escravo ou livre, homem ou mulher, israelita ou gentio — é imagem do Deus verdadeiro. Isto mina toda hierarquia sacral: se todo humano é imagem divina, nenhuma classe pode reivindicar superioridade ontológica sobre outra.
11.2 Contexto Econômico
O mandato de "subjugar a terra" (v.28) implica trabalho produtivo como dignidade, não como maldição. Em sociedades antigas onde trabalho manual era desprezado (Aristóteles: "próprio de escravos"), Gn 1:28 dignifica toda forma de labor como vocação divina.
11.3 Período Intertestamentar
Sirácida 17:1-4 expande Gn 1:26-28: "O Senhor criou o homem da terra... Revestiu-os de uma força semelhante à sua e os fez à sua imagem. Infundiu o temor deles sobre toda carne e deu-lhes domínio sobre feras e aves." Sabedoria 2:23: "Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez à imagem da sua própria eternidade." Filo de Alexandria: o Logos é a "imagem de Deus," e o homem é "imagem da imagem" — pré-figura cristológica.
11.4 Análise à luz de José Luis Sicre
Embora Sicre foque em profetas, o princípio é direto: se toda pessoa é imago Dei, então toda opressão é sacrilégio. Explorar o trabalhador, desprezar o pobre, desumanizar o estrangeiro — tudo isso viola a imagem de Deus que essas pessoas portam. Os profetas denunciam injustiça social exatamente porque ela contradiz a dignidade criacional de Gn 1:26-28.
12. APLICAÇÃO À IGREJA EVANGÉLICA BRASILEIRA
12.1 O que o texto CONFRONTA
- Racismo estrutural: A imago Dei é universal — não há base bíblica para qualquer forma de supremacia étnica. A igreja brasileira que tolera racismo institucional contradiz Gn 1:27.
- Desvalorização da mulher: "Macho e fêmea os criou" — ambos à imagem de Deus, ambos recebem o mandato. Culturas eclesiásticas que silenciam, infantilizam ou marginalizam mulheres contradizem o texto fundacional.
- Teologia da prosperidade como medida de valor: Se a dignidade vem da imagem (dom de Deus), não da riqueza (conquista humana), então o pobre não é "menos abençoado" — é igualmente imagem divina.
- Cultura do descarte: Idosos, deficientes, encarcerados, moradores de rua — todos portam a imagem. A igreja que os ignora ignora a dignidade que Deus lhes conferiu.
12.2 O que o texto CORRIGE
- Anti-intelectualismo: O mandato cultural inclui PENSAR, criar, desenvolver. A igreja que despreza educação, ciência e arte contradiz o mandato de "subjugar a terra" (desenvolver a criação).
- Dualismo sagrado/secular: Se o mandato cultural é pré-queda e dado à HUMANIDADE (não a sacerdotes), então toda vocação honesta é sagrada. O engenheiro, a professora, o agricultor — todos exercem o mandato de Gn 1:28.
- Passividade escatológica: "Jesus vai voltar, por que cuidar do mundo?" — Porque o mandato de domínio nunca foi revogado. Cuidar da criação é obediência ao Criador, independente da escatologia.
12.3 O que o texto EXIGE
- Respeito radical a toda pessoa — independente de status, etnia, gênero, orientação, capacidade.
- Engajamento cultural — não fuga do mundo, mas presença transformadora como portadores da imagem.
- Cuidado ecológico — domínio como mordomia responsável, não exploração predatória.
- Igualdade prática entre homem e mulher na dignidade, no valor e na vocação.
12.4 Aplicação Pastoral
- Pregação: Texto poderoso para autoestima bíblica (contra depressão, vergonha), para ética social (contra preconceito) e para vocação (contra sacralismo).
- Aconselhamento: "Você é imagem de Deus — não importa o que fizeram a você ou o que dizem sobre você. Sua dignidade vem do Criador, não de circunstâncias."
- Cuidado: Evitar uso do texto para justificar "dominação masculina" — o domínio é sobre a criação animal/vegetal, não de um gênero sobre outro.
12.5 Aplicação Missionária
- Contexto indígena: A imago Dei afirma: povos indígenas têm dignidade plena, cultura legítima, e vocação criacional. Missão não é destruir sua humanidade — é afirmá-la em Cristo.
- Contexto carcerário: Todo preso é imagem de Deus. Ministério em presídios não é "caridade opcional" — é reconhecimento da dignidade inviolável.
- Contexto digital: Em tempos de IA e desumanização virtual — Gn 1:26-28 reafirma: ser humano é insubstituível, não é máquina, não é algoritmo.
13. PERGUNTAS E RESPOSTAS
Nível 1 — Compreensão
P1: O que significa "imagem de Deus" (ṣelem ʾĕlōhîm)? R: Significa que o ser humano representa Deus na terra — como uma estátua de um rei numa província distante representava sua autoridade e presença. Não somos Deus, mas o representamos: portamos sua dignidade, refletimos (imperfeitamente) seus atributos, e exercemos autoridade delegada sobre a criação.
P2: Por que Deus disse "Façamos" (plural)? R: Três explicações principais: (1) plural de deliberação (auto-exortação solene); (2) Deus falando com seu concílio celestial (anjos); (3) diálogo intra-trinitário (Pai-Filho-Espírito). A teologia cristã favorece (3) como leitura canônica final, embora o sentido gramatical imediato possa ser (1). Note que anjos NÃO são à imagem de Deus — portanto (2) é menos provável.
P3: "Imagem" e "semelhança" são coisas diferentes? R: Na exegese moderna, não — são sinônimos usados em paralelo (hendíadis). A tradição patrística (Ireneu) os distinguia (imagem = natural; semelhança = sobrenatural), mas Gn 5:3 e 9:6 usam os termos intercambiavelmente, mostrando que não há distinção técnica no texto hebraico original.
Nível 2 — Interpretação
P4: O que significa "dominar" sobre a criação? R: Rādâ (dominar) é linguagem régia — governar como representante de Deus. NÃO é licença para exploração ou crueldade. Gn 2:15 esclarece: "cultivar e guardar" (ʿāḇaḏ e šāmar). O modelo é o pastor que cuida do rebanho (Sl 23; Jo 10), não o tirano que devora. O domínio é prestação de contas ao Proprietário (Deus).
P5: A imagem de Deus foi perdida na queda? R: Não — deformada, mas não eliminada. Gn 9:6 proíbe o homicídio PORQUE o ser humano pós-queda ainda porta a imagem. Tiago 3:9 condena a maledicência porque "homens são feitos à semelhança de Deus" (presente, não passado). A imagem é corrompida pelo pecado, mas subsiste — e é restaurada progressivamente em Cristo (2 Co 3:18; Cl 3:10).
P6: Se "macho e fêmea" é parte da imagem, solteiros portam imagem incompleta? R: Não. Cada pessoa individualmente é imagem completa de Deus (Gn 9:6 protege cada indivíduo). "Macho e fêmea" indica que a humanidade COLETIVAMENTE — em sua diversidade relacional — reflete a plenitude divina. Solteiros portam a imagem tanto quanto casados; a relacionalidade (não apenas sexual) é constitutiva.
Nível 3 — Controvérsia
P7: A imago Dei funda direitos humanos universais? R: Sim — é o fundamento teológico mais sólido para a dignidade inviolável. Diferente de fundamentos seculares (contrato social, utilidade), a imago Dei é incondicional: não depende de capacidade, produtividade ou consenso social. Todo ser humano TEM dignidade porque DEUS a conferiu — não porque a sociedade a reconhece.
P8: Gn 1:26-28 apoia a igualdade total entre homem e mulher? R: No que tange à dignidade, valor e posse da imagem — absoluta igualdade. Ambos recebem o mandato. Ambos são igualmente בָּרָא. O debate entre complementarismo e igualitarismo não é sobre dignidade (ambos concordam: igual) — é sobre funções e papéis pós-criação, especialmente em relação a Gn 2 e textos paulinos.
P9: Inteligência artificial pode ser "imagem de Deus"? R: Não no sentido bíblico. A imago Dei é conferida por ato criador específico de Deus à humanidade (bārāʾ — apenas Deus cria; humanos fazem IA). IA pode simular atributos (linguagem, decisão), mas não possui o que a imagem implica: relação pessoal com Deus, responsabilidade moral, alma/espírito, capacidade de adoração, mortalidade e esperança de redenção.
Nível 4 — Aplicação
P10: Como a imago Dei deve afetar minha atitude diária com as pessoas? R: Toda pessoa que você encontra — motorista de ônibus, pedinte, colega irritante, político corrupto — porta a imagem de Deus. Isso não significa que aprovamos tudo o que fazem; significa que tratamos cada um com a dignidade que Deus lhes conferiu. Insultar, desumanizar, ignorar ou explorar qualquer pessoa é ofender o Criador cuja imagem ela carrega (Tg 3:9).
P11: O mandato cultural ainda se aplica após a queda? R: Sim — nunca foi revogado. O pecado dificulta (Gn 3:17-19: "com suor"), mas não anula. Cristãos em toda vocação legítima exercem o mandato de Gn 1:28: cientistas explorando a criação, artistas expressando beleza, engenheiros desenvolvendo infraestrutura, pais criando filhos. Toda redenção visa também a restauração do mandato: "para boas obras, as quais Deus antes preparou" (Ef 2:10).
P12: Como usar Gn 1:26-28 contra o racismo? R: O texto é devastador contra toda forma de racismo: "Deus criou o ser humano à sua imagem... macho e fêmea os criou." NÃO há menção de etnias, classes ou cores — a HUMANIDADE INTEIRA porta igualmente a imagem. Qualquer ideologia que hierarquiza raças contradiz frontalmente o texto criacional. Na igreja: exigir diversidade real nos púlpitos, na liderança, nas relações, não apenas no discurso.
14. CONCLUSÃO TEOLÓGICA
O que o texto AFIRMA
Gênesis 1:26-28 afirma que a humanidade — homem e mulher, sem distinção — é o ápice da criação, portando a imagem de Deus como dom ontológico, vocação funcional e dignidade inviolável. O ser humano não é um animal mais desenvolvido, nem um deus decaído — é imagem: criatura que representa o Criador, governa em seu nome, e encontra seu sentido último na relação com Ele. Esta dignidade é universal (todo humano), inalienável (não pode ser retirada por pecado, crime ou doença) e teleológica (aponta para a restauração plena em Cristo).
O que o texto EXIGE
O texto exige que toda pessoa seja tratada com a dignidade que Deus lhe conferiu — desde a concepção até a morte natural. Exige que a humanidade exerça seu domínio sobre a criação como mordomos responsáveis, não como tiranos. Exige engajamento cultural ativo: trabalho, ciência, arte, governo, educação, família — tudo como exercício do mandato divino. E exige reconhecimento da igualdade entre homem e mulher como portadores igualmente plenos da imago Dei.
O que o texto PROMETE
Promete que a humanidade tem propósito: não somos acidente cósmico, mas criação intencional e deliberada de Deus ("Façamos"). Promete que a imagem deformada será restaurada: Cristo é "a imagem do Deus invisível" (Cl 1:15), e nós estamos sendo "transformados de glória em glória na mesma imagem" (2 Co 3:18). E promete consumação escatológica: "seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é" (1 Jo 3:2) — a imago Dei terá seu cumprimento pleno na visão beatífica.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Obras da Lista de 100 (efetivamente consultadas)
- Wenham, G. J. Genesis 1-15 (WBC). Zondervan, 1987. pp. 27-36.
- Hamilton, V. P. The Book of Genesis 1-17 (NICOT). Eerdmans, 1990. pp. 131-142.
- Westermann, C. Genesis 1-11 (Continental). Fortress, 1984. pp. 142-161.
- Waltke, B. K. Genesis: A Commentary. Zondervan, 2001. pp. 64-67.
- Kidner, D. Genesis (Tyndale). IVP, 1967. pp. 50-53.
- Calvino, J. Commentary on Genesis (1554). Baker reprint. pp. 91-100.
- Harris, R. L., Archer, G. L., Waltke, B. K. DITAT. §1923 (צֶלֶם), §437 (דְּמוּת).
- Koehler, L., Baumgartner, W. HALOT. Vol. III, pp. 1028-1029.
- Botterweck, G. J., Ringgren, H. TDOT. Vol. XII, pp. 386-396.
Obras Adicionais (fora da lista)
- Middleton, J. R. The Liberating Image: The Imago Dei in Genesis 1. Brazos Press, 2005.
- Clines, D. J. A. "The Image of God in Man." Tyndale Bulletin 19 (1968): 53-103.
- Hoekema, A. Created in God's Image. Eerdmans, 1986.
- Barth, K. Church Dogmatics III/1. T&T Clark, 1958. pp. 182-206.
- Moltmann, J. God in Creation. Fortress, 1985. pp. 215-243.
- Bird, P. A. "'Male and Female He Created Them': Gen 1:27b in the Context of the Priestly Account of Creation." HTR 74 (1981): 129-159.
Artigos e Periódicos
- Garr, W. R. "Image and Likeness in the Inscription from Tell Fakhariyeh." IEJ 50 (2000): 227-234.
- Herring, S. L. "A 'Transubstantiated' Humanity: The Relationship between Divine Image and the Presence of God in Genesis i 26f." VT 58 (2008): 480-494.
- McDowell, C. L. The Image of God in the Garden of Eden. Eisenbrauns, 2015.
Entrada produzida conforme Protocolo-Mestre v4.0 Ampliado. Segunda entrada Tier 1. Última atualização: 2026-08-03